Nota do cartunista
Como os trabalhos que estou fazendo não podem ser mostrados ainda. Vou colocar um texto que li hoje e que achei muito bacana:

Os cartunistas estão certos
No meu cartum dinamarquês favorito, Maomé está perplexo. De pé sobre nuvens, vê rapazes e mais rapazes carregando mochilas despedaçadas chegando às portas do paraíso. "Parem, parem!", ele diz. "Acabaram as virgens!" Gosto dele porque há duas maneira de compreendê-lo. Ele fala de nossa perplexidade ocidental, em grande parte laica, perante a promessa das eternas virgens do martírio homicida que move tantos jovens nos dias correntes.
Mas o que mais gosto não é isto: o que mais gosto é que, na charge, Maomé está igualmente perplexo.
Agora, parece cada vez mais claro que as reações tardias à blasfêmia tiveram um quê de orquestradas. Assim, os cartuns talvez não tenham sido exatamente uma provocação abusiva mas, sim, a gota d'água de uma crise aberta faz anos. É um mal-entendido insolúvel, as duas culturas não conseguem acertar um diálogo. Mas há uma questão na qual vale entrar: a liberdade de expressão.
Esta semana, duas das vozes mais sensatas que existem na imprensa diária, Clóvis Rossi, da "Folha de S. Paulo", e Luiz Garcia, de "O Globo", apresentaram mais ou menos o mesmo ponto de vista. Que liberdade de expressão defende-se, e sempre, não há dúvidas. Mas ela deve ser acompanhada de responsabilidade editorial por parte dos jornais. E que, no caso específico, foi uma provocação gratuita e indevida.
Clóvis e Garcia são gente que costumo ler porque, às vezes, é reconfortante saber que não fiquei louco, que há quem concorde comigo em questões várias. Foi por isso que minha primeira reação foi de choque.
Liberdade de expressão não é um tema simples. No Ocidente, é dificílimo encontrar quem se ponha contra mas, pensando bem, qualquer um é capaz de pinçar uma exceção ou outra. No caso brasileiro, a Lei Contra o Racismo impõe um limite claro. A criminalização daquilo que chamam de apologia às drogas é não mais que policiamento do discurso. No Brasil, não é permitido falar tudo o que lhe vem à mente.
Pince outros países considerados civilizados à luz do laicismo – a França, digamos – e negar o Holocausto é crime. Os EUA são um caso todo particular. A primeira emenda inscrita na Constituição de uma folha, frente e verso, proíbe que se proíba o discurso, qualquer discurso, e ponto. Larry Flint publicou em sua revista, a "Hustler", uma montagem explícita em que o reverendo Jerry Falwell fazia sexo com a própria mãe e a Suprema Corte decidiu que ele podia publicar, sim, a Constituição protege.
Mau gosto, sem dúvida alguma – mas o reverendo Falwell tinha um programa na televisão, era figura pública, então não há o que discutir. Flint tanto provocou os limites do que podia publicar que um grupo intolerante resolveu abatê-lo a tiros. Não conseguiram – mas ele vive numa cadeira de rodas.
Com todo o seu mau gosto, Larry Flint está sempre perguntando onde se traça, exatamente, o limite, a fronteira entre o que pode e o que não pode ser dito ou escrito ou desenhado ou fotografado. E o que ele está dizendo, também, é que não importa onde. Importa é que o nome de quem traça este limite é censor.
Aqui a questão não é o Estado limitar a liberdade mas a imprensa responsável exercer cautela. É evidente: cautela – sempre. Mas há um outro lado: também é preciso coragem para dizer certas coisas que o politicamente correto evita. A invasão do Iraque foi uma guerra irresponsável, equivocada e baseada na mentira das armas de destruição em massa. É verdade. Provavelmente piorou, em muito, uma crise já instalada. Perfeito.
Só que ligar o profeta Maomé ao terrorismo não é artificial. Não quer dizer, de forma alguma, que todos os muçulmanos do mundo sejam terroristas ou mesmo que simpatizem com o terrorismo. Mas o fato é que foi em nome de Alá e de seu profeta que um grupo de sauditas fez aviões atravessarem as torres gêmeas. É em nome de Alá e de seu profeta, abençoados sejam, que boa parte dos terroristas no Oriente Médio e Ásia Central atuam.
Segundo o Islã, é blasfêmia retratá-lo. Certo. Me ofende como ser humano, como parte do Todo, que os países muçulmanos publiquem, muitas vezes com incentivos estatais, "Os protocolos dos sábios do Sião". Não acho que seja blasfêmia, seria preciso ter uma religião para isso. Mas me ofende num nível profundo, naquele do respeito à vida do próximo – num nível equivalente, portanto, ao que a blasfêmia ofende ao crente.
Convenhamos, quando é com eles, aí é insensibilidade ou provocação ocidental? Quando parte deles pode? Vivemos todos no mesmo mundo, somos todos gente criada do mesmo jeito, não podemos conviver com regras diferenciadas de convívio. Às vezes ouvimos coisas que não gostamos. Sentir-se ofendido é um direito de qualquer um. Boicotar produtos de um país é direito. Fazer protestos diplomáticos oficiais, dar queixa na polícia, entrar na Justiça – pode tudo. Ameaçar de morte, não. Matar, incendiar prédio – não.
Essas reações estão revelando, apenas, o que era óbvio para os cartunistas dinamarqueses. O Islã está em crise e, em seu nome, há um grupo que com tolerância de muitos governos recorre à violência. Isto faz com que aquilo que muitos estão chamando de provocação não seja provocação mas, pura e simplesmente, constatação. Os cartunistas dinamarqueses têm razão.
O que traz a questão ao seu último problema: há uma tentativa de parte do establishment islâmico de se impor, de censurar à distância. Já atacam, seqüestram e matam jornalistas no Iraque, no Paquistão, no Afeganistão. Agora querem estender o alcance de suas ameaças. Que ninguém tenha dúvidas: a ameaça de morte aos cartunistas é real. Eles cumprem. E esta é uma ameaça que diz à imprensa em todo o mundo: cuidado, muito cuidado com o que escreve. Se hoje os cartuns parecem abusivos para alguns editores, se parece razoável a revolta, para onde empurrarão o limite amanhã?
Não fosse o Islã, o cristianismo medieval, intolerante, violento, ignorante, teria afundado com toda a ciência desenvolvida pelos gregos. Devemos isto que chamamos de civilização ocidental ao Islã. O Islã ibérico faz mais parte de nós, brasileiros, do que jamais desconfiaremos. Não fosse o Islã da Ibéria, do norte da África e do Oriente Médio, as bases que promoveram o Iluminismo teriam sido perdidas. Sem o iluminismo não haveria liberdade de expressão e cá estamos de volta.
Por favor: façam publicar "Os protocolos dos sábios do Sião", "Minha luta" de Hitler, toda literatura anti-semita que existe. Também a anti-cristã. Em muitos casos, é um argumentação tão grosseira, uma falsificação tão óbvia, que só expõe quem fala disso ao ridículo.
No fim, o Tutty aqui ao lado resume tudo muito bem: "Cobrar responsabilidade de chargistas, francamente, será que todo mundo enlouqueceu, caramba?"
Texto de Pedro Doria, pro NoMinímo.
Escrito por Mayer às 18h22
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